Senador retoma luta para acabar com as torcidas organizadas no futebol

Nesta terça-feira (11), o jornal Estadão publicou uma reportagem sobre o projeto de lei do senador Major Olímpio, que pede o fim das torcidas organizadas. O texto traz também os depoimentos de representantes das organizadas. Confira abaixo a entrevista na íntegra do Jerry Xavellier, diretor e conselheiro dos Gaviões:
– O que você acha que motivou a formulação de um projeto para extinguir todas as torcidas organizadas?
O povo organizado incomoda sempre. O receio maior é pela força que ali se esconde. Os Gaviões da Fiel representam a resistência do povo nas arquibancadas, a resistência do torcedor de baixa renda e do proletariado. Representamos as tradições da cultura brasileira de torcer. As torcidas organizadas atrapalham o processo de elitização dos estádios, elas são a pedra no sapato. Eles não querem torcedores, querem clientes, consumidores. O torcedor passou a ser indesejado dentro das arenas. Cliente não reclama do preço do ingresso, pois só vai nas horas boas – já o torcedor vai sempre, nos tempos bons e ruins, o valor do ingresso tem impacto no seu orçamento, ele vai protestar sempre. Cliente senta no local indicado no seu ingresso, fica sentado e calado como se estivesse em um teatro – o torcedor fica em qualquer lugar, assiste o jogo em pé, apoia o time durante os 90 minutos. Cliente quer conforto e consequentemente gasta mais, já o torcedor só quer ver o seu time jogar. Dentro desta lógica, criminalizar as torcidas para conseguir a sua extinção é o que falta para o ciclo do futebol moderno se completar dentro dessas novas arenas.
– Estudos apontam que apenas uma pequena parcela dos organizados são violentos (aproximadamente 5%). Ainda assim, esse projeto quer criminalizar a organização como um todo. Qual sua opinião sobre isso?
Não acredito que seja esta porcentagem, pois se fosse, a violência seria muito maior. Os Gaviões tem 114 mil sócios, 5% daria 5.700 sócios e com essa quantidade, mal conseguimos levar ao estádio nos dias de jogo. Quando as brigas de grande proporção acontecem, sempre aparecem no noticiário que cerca de 200 pessoas estavam envolvidas de cada lado, isso representa menos de 0,5% dos sócios. Portanto, punir uma torcida inteira por conta de menos de 1% não é justo.
Eu e muitos que estão na torcida têm a opinião de que é preciso punir o indivíduo, o CPF, não o CNPJ. Quando um soldado da Polícia Militar comete um ato ilícito, ninguém pede a extinção da PM, até porque isso não resolve, eles punem o indivíduo e essa mesma lógica tem que servir também para as torcidas.
A grande verdade é que os órgãos responsáveis não querem resolver o problema, não querem meter a mão na massa e fazer acontecer, eles preferem optar por medidas paliativas e populistas, pois assim, dão uma resposta imediata para a sociedade. Porém, o problema da violência não só continua, mas aumenta cada vez mais. Alguns usam a violência como trampolim eleitoral, como fez Fernando Capez, se quisessem resolver algo fariam um trabalho sério, punir as organizadas nunca trouxe nenhum resultado. Estamos sendo punidos desde 1995, proibiram faixa, bateria, bandeiras de mastro etc… De lá pra cá, a violência só aumentou de forma alarmante. Adotaram em 2016 a medida da torcida única, a violência não acabou, já tivemos 5 (cinco) mortes desde então.
– Major Olímpio acusa as organizadas de serem organizações ‘de fachada’ para acobertar o crime organizado. O que tem a dizer sobre afirmação?
É lamentável que a principal proposta de um senador eleito seja acabar com as torcidas organizadas e as reservas indígenas. Veja bem, a principal proposta dele é essa. Ele falou isso em sua primeira entrevista assim que recebeu a notícia de que foi eleito. Como pode uma pessoa eleita, para um cargo tão importante, não ter nenhuma proposta para resolver os problemas graves da população? Até agora não ouvi ele falar em melhorar a saúde e educação ou como fará para ajudar os 13 milhões de desempregados, tudo que ele fala tem relação com repressão, destruição e extinção, nada para melhorar a vida das pessoas que o elegeram.
Quando ele diz que somos “organizações de fachada para acobertar o crime organizado”, ele deixa claro sua estratégia. O livre direito de associação é garantido pela Constituição Federal, ele sabe que a tentativa de criminalização de qualquer modelo associativo sem a análise pontual das atividades das agremiação é inconstitucional, pois cria um elemento prévio de controle das pessoas que podem ou não se reunir no estado brasileiro, ou seja, a Constituição garante liberdade plena a qualquer tipo de associação, salvo para fins ilícitos. Assim, ao defender que somos fachada do crime organizado, ele quer que seja reconhecido que as torcidas existem para fins ilícitos – mesmo não existindo nada que aponte para isso. E, a partir daí, conseguir pleitear a extinção das mesmas sem risco da matéria ser julgada inconstitucional a posteriori.
O senador nunca leu nada a respeito das torcidas organizadas, tampouco participou de debates para tentar entender qual a realidade das mesmas, ele fala sobre um assunto no qual desconhece totalmente. Segundo a pesquisadora e autora do livro, Futebol e Violência, Heloísa Reis: “Torcidas organizadas agora recebem o rótulo de ‘facções’. É uma clara tentativa de relacioná-las ao mundo do crime, como se todas as suas atitudes fossem ilícitas. Mas a realidade é diferente. O torcedor organizado não é bandido. Ele trabalha (a média de desemprego nas torcidas é de 2,8%, em comparação com os 86,1% da média brasileira), mora com os pais (86,8%) e tem um significativo grau de instrução (80,8% possui de 10 a 12 anos de escolaridade).” Ou seja, realidade totalmente diferente da que o Major propaga por aí sem fundamento algum.
Já existe na própria legislação a possibilidade de uma torcida organizada ser punida – até com sua extinção – caso seja considerada uma organização criminosa. Se a pessoa jurídica, a agremiação, cometer um crime, ela pode ser penalizada. Se um indivíduo integrante da organizada cometer um crime, ele também pode ser punido. Única espécie de controle que pode haver é regulamentação e limitação desse direito, o que já existe no Estatuto do Torcedor. Portanto, esse projeto de lei que o senador quer propor, é desnecessário, populista e inconstitucional.
Aproveito a oportunidade para convidar o excelentíssimo Senador Federal para conversar conosco. Acredito que ele será republicano e aceitará o convite, pois no Senado, a casa do povo, costuma-se chamar todos os atores envolvidos para debater ideias. Canetada de cima pra baixo não faz parte da democracia.
– Você acredita que existe preconceito contra o torcedor organizado?
Sim. A midiatização da violência pela imprensa sensacionalista não só colaborou para que esse preconceito passasse a existir, como contribuiu para o aumento da própria violência no futebol. Quando a mídia reproduz exaustivamente as imagens de violência, ela maximiza isso. Informar é uma coisa, espetacularizar a violência, é outra.
Quando imprensa usa o termo facção ao invés de torcedor organizado, ela marginaliza esses torcedores, ela generaliza de forma irresponsável mesmo sabendo que torcedores violentos são uma minoria. Esse torcedor que se sente marginalizado tende a se defender, ficando mais hostil com qualquer um que não seja de seu grupo. O jornalista Flávio Prado chamou de vagabundo 10 mil torcedores que compareceram a um treino do Corinthians numa manhã de sexta-feira. Será que ele sabe da vida de cada um ali? Sabe quem trabalha a noite, está de férias ou conseguiu pegar uma folga? Trabalho desde os meus 14 anos de idade, me revoltou ter que ouvir aquilo. Esse tipo de julgamento colabora em que para a paz no futebol?
Vale ressaltar que, apesar da mídia contribuir com essa imagem preconceituosa, ela sempre usa as torcidas organizadas como exemplo de festa, vibração e apoio, inclusive em suas propagandas que antecedem os jogos.
Lutar pela extinção das torcidas organizadas é o mesmo que apoiar o fim das magníficas festas nos estádios que só elas sabem fazer. Quer queira ou não, são as organizadas que garantem uma identidade, uma alma, um pouco de vida que ainda resiste atrás dos gols nos estádios Brasil afora. Mais festa e menos pirotecnia política.
– A polícia de São Paulo já encontrou indícios da infiltração de membros de organizações criminosas dentro das torcidas. Isso, de certa forma, não abre espaço para que acusações como essa do Major Olímpio sejam feitas?
O crime organizado está presente até no Congresso Nacional, por que nas torcidas isso seria diferente? As organizadas são uma associação, qualquer um pode se associar, lá não é diferente de nenhum lugar da sociedade, tem pessoas boas e ruins. O atual ministro da justiça, Torquato Jardim, disse que o governador do RJ e o secretário de Segurança não controlam a Polícia Militar e que o comando da corporação faz acerto com crime organizado. Veja bem, estamos falando da alta cúpula da polícia da segunda maior cidade do país, se a própria PM não está livre do crime organizado, as torcidas também serão vítimas deste mesmo mal. O que posso garantir é: nunca, jamais alguém ligado ao crime organizado teve cargo ou exerceu qualquer tipo de liderança dentro dos Gaviões.
– Na maior parte das brigas com decorrência de morte, as organizadas estavam envolvidas de alguma forma. Qual a responsabilidade da torcida nessas mortes?
As organizadas não, alguns sócios, talvez. Costuma-se creditar nas torcidas todos os atos de violência, mas inúmeros casos vem de torcedores comuns – não organizados – como no caso do palmeirense que foi esfaqueado após uma discussão com corinthianos em uma borracharia em 2017 e morreu. Pessoas ligadas a alta cúpula dos clubes, que deveriam dar exemplo, agem de maneira violenta, como o caso dos palmeirenses que ameaçaram o Andrés, tudo isso em um ambiente de festa de aniversário do próprio clube deles, onde o convidado era o presidente do clube rival e estava sozinho no momento do fato. Jogadores se agridem o tempo todo, na copa do mundo de 2014 rolou até mordidas.
Entendo que para as organizadas ter envolvimento direto, o presidente e os diretores têm que estar envolvido ou sabendo que as brigas irão acontecer e nada fazem para evitar. Os Gaviões sempre colaboram com as autoridades, fizemos o recadastramento, comparecemos às reuniões no batalhão do choque e seguimos todas as instruções, também damos nossa opinião sobre algumas questões no qual achamos que dominamos mais. Ninguém pega a carteirinha nos Gaviões sem assistir a reunião de novos sócios, lá ensinamos nossa história, ideologia e como se comportar nos estádios e fora deles. Temos um Conselho Deliberativo que é o guardião do nosso estatuto e quem não segue as regras é punido, inclusive com a expulsão.
O que precisa ficar claro é, o torcedor não passa o portão da sede de sua torcida e fica violento, ele está inserido dentro de uma sociedade violenta. Estamos falando de um país onde uma criança é baleada antes de nascer. Estamos falando de um lugar onde crianças são atingidas por balas perdidas dentro da escola. Somos líderes mundiais de homicídios: 60 mil por ano. Isso da mais que as duas guerras no Iraque. Em meio a uma sociedade extremamente violenta, querem que as torcidas sejam o Vaticano? Nosso problema é social.
Para se alcançar a paz tem que envolver os diferentes protagonistas deste processo, delegando responsabilidades e cobrando respeito de todas as partes. Não se exige paz numa cultura de violência, ela é construída. Não se faz paz com uma pseudo-imprensa que legitima a ação violenta da polícia. Não se faz paz com direitos básicos sendo desrespeitados. Não se faz paz sem punição. E o mais importante, não se faz paz sem tentar mudar a mentalidade e os valores da nossa sociedade. Isso exige educação. E educação exige empenho.
A paz é responsabilidade de idosos, adultos e crianças, de homens e mulheres, de dirigentes, policiais, jornalistas e torcedores, organizados ou não. Quando falamos de justiça, queremos que a sociedade se organize de forma que a paz esteja ao alcance de todos, e não que a chamada “justiça” seja apenas uma forma de intimidação. Justiça gera paz.